Triste é o que fica na memória: um misto de amor e ódio, uma coisa qualquer... qualquer coisa nebulosa, algo de grotesco. Sutilezas sem sentido, sem destino, sem direção... Tudo o que foi, parece nunca ter sido e as vezes dói pelo que foi e outras vezes traz um alívio, como alguém que escapou do cativeiro, jamais ileso, mas feliz... mais feliz... mais eu... muito mais eu... outro tom, outra cor, outra vida, outra voz... tudo o que era outro, agora sou eu... eu como sempre fui, mas escondida atrás de uma cortina de ilusões, de contos de fada, irreais... eu, como sempre fui: um coração terno, uma alma gentil...
Todo o exterior era estranho... passagens de histórias, sem nenhum final... Nada ficava no lugar. Era frio. Era a rua. Era uma ponte.
Pegava a lâmina, pressionava contra os pulsos. A coragem faltava. Pequenas gotículas apareciam. Não, não era certo. Precisava de coragem. Uma cerveja, sim, uma cerveja era o que faltava. O gosto amargo na boca. Há tempos não sentia esse gosto, embora o desejasse. Parecia outra pessoa. Tão artificial.
Uma não era suficiente. Era pouco. Mais uma. Mais outra. E outra... que horas são? 14 horas haviam se passado desde a primeira. Já não estava em casa. Alguma festa. Não reconhecia ninguém, mas isso não era importante. A vida era curta demais. É preciso aproveitá-la, divertir-se. A música ao fundo parecia familiar. De repente, o banheiro. Sentia o beijo, a barba que roçava seu rosto, seus seios, sua pélvis agora nua. De joelhos, procurava... Virou-se colocando uma das pernas em cima da privada, facilitando a passagem. Sentia o solavanco. Ritmado e impreciso.
Abriu os olhos e não reconheceu o cenário. Somente flashes flutuavam na mente. Um banheiro. Lembrava-se de um banheiro. Encontrou-o, lavou o rosto e limpou o nariz. Pequenas placas de sangue seco. Agora começava a lembrar das carreiras no banheiro. O banheiro. Lembrava-se de um banheiro.
Saiu pra comprar cigarros e cerveja. Contava sua triste história para os bêbados decadentes nos botecos. Ah, como era triste. Pobre garota: perdera a inocência, era vítima e não havia ninguém para salvá-la, mas a cerveja, ah sim, a cerveja.
Enquanto voltava para... bem, não sabia bem para onde voltava, mas voltava. Entrou e, olhando ao redor, lembrou-se de um banheiro. Sim, lembrava-se de um banheiro. Sentou na privada e abriu a cerveja. Talvez mais uma carreira caísse bem. Voltou ao quarto e procurou nos bolsos do homem que dormira ao seu lado. Lá estavam, duas. Voltou ao banheiro e esticou uma carreira. Bem servida, a primeira era sempre bem servida. Lembrava do banheiro, sim, um banheiro.
Acendeu o cigarro e levou-o à boca. Notou então a fraca marca do corte iniciado dois dias antes. Teriam sido dois dias? Ou três? Bem, que importava isso?! Não era certo deixá-lo interminado... procurou por algo cortante. Ora, uma lâmina qualquer servia... A coragem não vinha, abandonava-a. Resolveu terminar a cerveja calmamente. Lembrava-se de um banheiro.
Abriu a outra cerveja. Esticou outra carreira. Olhou no espelho... sim, era isso. Todo o glamour da vida de um artista. Repetia para si: I’m so high! E sorria. Mas então lembrou-se de um banheiro. Lembrou enfim... as lágrimas começaram a correr... de repente, a cerveja e a coca já não ajudavam mais. Lembrou-se do banheiro. Aquele banheiro, 15 anos antes.
Tomou o resto da cerveja e esticou mais uma... pegou a lâmina e fechou os olhos. Conseguira. O sangue jorrava e sentia toda a sujeira saindo pela fissura aberta... deitou no chão e observou o piso que ficava vermelho... ainda faltava o outro pulso. Mas o banheiro, lembrava-se de um banheiro. Decidiu que seria melhor tomar mais uma e cheirar mais uma carreira. Sentou-se então no chão do banheiro, acendeu um cigarro e fumou. Lentamente soltava a fumaça, lentamente. Agora tudo tomava sua forma ideal. Agora que nada mais fazia sentido, esse era o encaixe perfeito.
Mais uma tragada. Batia as cinzas na pequena poça que se formava. O pulso cortado deixou em repouso, sem movê-lo. Mas agora precisava dele para cortar o outro e completar o quadro. Tinha que conter a aflição. Não doía, mas a aflição era quase insuportável. Abriu outra cerveja, já quente a esta altura. Mais uma carreira. Apagou o cigarro na poça, pegou a lâmina. Já não se lembrava do banheiro. Tudo o mais desapareceu quando rasgou o outro pulso. Já não lembrava do banheiro...
Maravilhoso!!!!!
ResponderExcluirObrigada Mari! =)
ExcluirDilacerante. Catártico.
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