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domingo, 22 de setembro de 2013

Angústia

Me interessa a carne, o feio... me interessa como a chuva interessa à flor. Me interessa a mente, escandalosamente...
Me interessa a fraqueza humana, a desvirtude, a desilusão...
"Qual é o oposto do amor? Ódio?? É muito óbvio. Acho que o oposto do amor é uma sensação constante de perplexidade, dolorosa perplexidade".
Olhei no espelho, contei os cravos, as espinhas, as marcas do tempo e das outras pessoas... que somos nós senão os retalhos de tantas histórias...
A vida trancada num quarto de hotel... o cheiro do sexo. O turbilhão de secreções e despudores...
Havia algo de podre em mim...
Os pulsos marcados pela angústia de uma vida que não se quer viver...
Deus é uma mulher... uma mulher atormentada e com grande poder. Ela não me deixa partir... me resgatou tantas vezes... Me trás de volta à esse esboço de vida que não quero viver...
Olhei no espelho.
Beijei-o, fechei os olhos tentando sentir meu próprio beijo... abri os olhos e me vi de perto. Afinal de contas, eu sou bonita, pensei.
Voltei ao quarto e deitei-me ao lado da figura que se enroscava nos lençóis. Olhei-a vagarosamente por algum tempo.
Seu rosto estava em paz... não fazia ideia do que me afligia. Uma angústia vazia. A sensação de não ser.
Retirei da bolsa uma faca, afiada... ensaiei um ataque furioso, em silêncio. Dormia pesadamente e sem desconfiar de meus planos... Testei o gume em mim, na barriga, um corte amplo de lado a lado... estava mesmo afiada... minha camisa encharcava-se do meu sangue... puxei a coberta lentamente, deixando suas costas à mostra... Ela suspirou como se estivesse feliz, e procurou minha mão... sem abrir os olhos, colocou minha mão sobre seus seios desnudos. Voltou a suspirar e retornou ao sono pesado.
Puxei minha pele, sobre o coração, e cortei um pedaço...

Deixei em cima da cômoda o dinheiro da diária, a faca e aquele pedaço de mim...