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quinta-feira, 17 de outubro de 2013

It is not the future that scares me, but my past

Sentia que finalmente poderia ser feliz. O carinho, o sexo, as conversas... tudo era mágico.

Estava novamente na rua. Acordei com a cabeça latejando e o rosto coberto de sangue. O cigarro aceso queimara meu rosto quando caí.

Acordei. Olhei para o céu. Meus olhos doíam por causa da luz. A rua era então estranha. Não me recordava daquele lugar. Apenas a sarjeta, igual em qualquer lugar, era familiar. Tirei a blusa, molhei a ponta da manga na água que corria e comecei a limpar o sangue seco que escorrera na face durante a madrugada. Era ainda cedo. Minhas narinas ardiam. Placas e placas de sangue misturado com uma pasta branca... e aquelas três palavras vagando na minha mente.

Cheguei na casa dela às sete da noite. Jantamos uma refeição sem nenhum requinte, mas gostosa. Sentamos no sofá, assistimos um filme. Entre beijos e carinhos e desejo, ficamos nuas... 

Tentava me lembrar da noite, mas a memória estava ainda bagunçada. Luzes, luzes de postes... talvez um posto de gasolina. Andando sem rumo, eu procurava alguma placa, alguma indicação de onde estava... um rosto me apareceu na lembrança... um rosto barbudo, gordo, malcheiroso...

Fizemos amor durante horas. Entre um orgasmo e outro, muitos beijos e abraços apertados. Me olhava nos olhos, sussurrava nos meu ouvidos...

Tinha os dentes amarelos e tortos. O uniforme cheirava gasolina. O corpo era deformado, grotesco. O banheiro era apertado, o chão, imundo... sentia meus joelhos se molharem quando encontraram o lamacento chão. O chão estava todo líquido: urina, bebida, água de uma privada entupida, porra de muitas trepadas...

Eu a sentia em mim... dentro de mim. Eu implorava por mais. Já não podia conter os gritos e os gemidos de prazer. Eu ofegava, feliz...

Ali ajoelhada, abrindo o cinto e o zíper daquele uniforme. Ele me olhava e ria. Me segurava pelos cabelos, dando ritmo ao movimento. Me puxava pra frente e para trás, cada vez mais rápido, com raiva e com força. Cada vez que me puxava, eu engasgava e meu nariz e testa encostavam naquela barriga grande, peluda e suada...

Gozei. Me deixei cair sobre o peito dela, dei um suspiro e sorri feliz. Ela me beija o couro da cabeça. Depois levantou meu rosto, com suavidade, e me beijou a boca...

Quando da minha boca já estava satisfeito, aquele ser grotesco, de um puxão me botou em pé. Me virou de costas e me colocou contra a fina parede que separa uma cabine da outra. Apressado, me arrancou as calças, me apertou os seios, desajeitado e com força demais...

Ela me olhava com profundidade. Aqueles olhos mansos enxergavam dentro de mim... me beijava o rosto. Apertei-lhe os seios e ouvi quando deixou escapar um gemido agudo...

Ele abriu bem a minha bunda. A mão, imunda de graxa e óleo, pressionava minha boceta. Não, eu não sentia tesão. Sentia apenas prazer... o mesmo prazer de um corte profundo. Senti então que ele me comia. Doía muito, pois estava seca. Doía, e eu me contorcia pelo prazer de sentir dor. Me puxava pela cintura com as mãos enormes e desajeitadas... senti escorrer seu gozo como se fosse meu sangue saindo por uma fissura...

Não me contive. Aquele gemido me deixou excitada. Começamos novamente. Senti-a molhada, pedindo meu toque delicado... beijava-a intensamente enquanto ela se contorcia de prazer com meu toque... em êxtase, gozamos juntas...

Eu estava agora no alto da ponte. Aquelas lembranças da noite anterior girando na cabeça... pensei então que eu deveria ser uma dessas pessoas que não nasce pra ser feliz... abri os braços, fechei os olhos e senti a brisa...

Deitada em meus braços, ela então me disse aquelas três palavras... assim que ela adormeceu, eu saí. Tomei um ônibus. Desci num posto de gasolina e comprei um litro de cachaça... Meu peito se fechou.

Subi no parapeito e, já sem forças, me deixei levar pelo vento...


domingo, 22 de setembro de 2013

Angústia

Me interessa a carne, o feio... me interessa como a chuva interessa à flor. Me interessa a mente, escandalosamente...
Me interessa a fraqueza humana, a desvirtude, a desilusão...
"Qual é o oposto do amor? Ódio?? É muito óbvio. Acho que o oposto do amor é uma sensação constante de perplexidade, dolorosa perplexidade".
Olhei no espelho, contei os cravos, as espinhas, as marcas do tempo e das outras pessoas... que somos nós senão os retalhos de tantas histórias...
A vida trancada num quarto de hotel... o cheiro do sexo. O turbilhão de secreções e despudores...
Havia algo de podre em mim...
Os pulsos marcados pela angústia de uma vida que não se quer viver...
Deus é uma mulher... uma mulher atormentada e com grande poder. Ela não me deixa partir... me resgatou tantas vezes... Me trás de volta à esse esboço de vida que não quero viver...
Olhei no espelho.
Beijei-o, fechei os olhos tentando sentir meu próprio beijo... abri os olhos e me vi de perto. Afinal de contas, eu sou bonita, pensei.
Voltei ao quarto e deitei-me ao lado da figura que se enroscava nos lençóis. Olhei-a vagarosamente por algum tempo.
Seu rosto estava em paz... não fazia ideia do que me afligia. Uma angústia vazia. A sensação de não ser.
Retirei da bolsa uma faca, afiada... ensaiei um ataque furioso, em silêncio. Dormia pesadamente e sem desconfiar de meus planos... Testei o gume em mim, na barriga, um corte amplo de lado a lado... estava mesmo afiada... minha camisa encharcava-se do meu sangue... puxei a coberta lentamente, deixando suas costas à mostra... Ela suspirou como se estivesse feliz, e procurou minha mão... sem abrir os olhos, colocou minha mão sobre seus seios desnudos. Voltou a suspirar e retornou ao sono pesado.
Puxei minha pele, sobre o coração, e cortei um pedaço...

Deixei em cima da cômoda o dinheiro da diária, a faca e aquele pedaço de mim...

quinta-feira, 27 de junho de 2013

Triste é o que fica na memória



Triste é o que fica na memória: um misto de amor e ódio, uma coisa qualquer... qualquer coisa nebulosa, algo de grotesco. Sutilezas sem sentido, sem destino, sem direção... Tudo o que foi, parece nunca ter sido e as vezes dói pelo que foi e outras vezes traz um alívio, como alguém que escapou do cativeiro, jamais ileso, mas feliz... mais feliz... mais eu... muito mais eu... outro tom, outra cor, outra vida, outra voz... tudo o que era outro, agora sou eu... eu como sempre fui, mas escondida atrás de uma cortina de ilusões, de contos de fada, irreais... eu, como sempre fui: um coração terno, uma alma gentil...


Todo o exterior era estranho... passagens de histórias, sem nenhum final... Nada ficava no lugar. Era frio. Era a rua. Era uma ponte.


Pegava a lâmina, pressionava contra os pulsos. A coragem faltava. Pequenas gotículas apareciam. Não, não era certo. Precisava de coragem. Uma cerveja, sim, uma cerveja era o que faltava. O gosto amargo na boca. Há tempos não sentia esse gosto, embora o desejasse. Parecia outra pessoa. Tão artificial.


Uma não era suficiente. Era pouco. Mais uma. Mais outra. E outra... que horas são? 14 horas haviam se passado desde a primeira. Já não estava em casa. Alguma festa. Não reconhecia ninguém, mas isso não era importante. A vida era curta demais. É preciso aproveitá-la, divertir-se. A música ao fundo parecia familiar. De repente, o banheiro. Sentia o beijo, a barba que roçava seu rosto, seus seios, sua pélvis agora nua. De joelhos, procurava... Virou-se colocando uma das pernas em cima da privada, facilitando a passagem. Sentia o solavanco. Ritmado e impreciso.


Abriu os olhos e não reconheceu o cenário. Somente flashes flutuavam na mente. Um banheiro. Lembrava-se de um banheiro. Encontrou-o, lavou o rosto e limpou o nariz. Pequenas placas de sangue seco. Agora começava a lembrar das carreiras no banheiro. O banheiro. Lembrava-se de um banheiro.


Saiu pra comprar cigarros e cerveja. Contava sua triste história para os bêbados decadentes nos botecos. Ah, como era triste. Pobre garota: perdera a inocência, era vítima e não havia ninguém para salvá-la, mas a cerveja, ah sim, a cerveja.


Enquanto voltava para... bem, não sabia bem para onde voltava, mas voltava. Entrou e, olhando ao redor, lembrou-se de um banheiro. Sim, lembrava-se de um banheiro. Sentou na privada e abriu a cerveja. Talvez mais uma carreira caísse bem. Voltou ao quarto e procurou nos bolsos do homem que dormira ao seu lado. Lá estavam, duas. Voltou ao banheiro e esticou uma carreira. Bem servida, a primeira era sempre bem servida. Lembrava do banheiro, sim, um banheiro.


Acendeu o cigarro e levou-o à boca. Notou então a fraca marca do corte iniciado dois dias antes. Teriam sido dois dias? Ou três? Bem, que importava isso?! Não era certo deixá-lo interminado... procurou por algo cortante. Ora, uma lâmina qualquer servia... A coragem não vinha, abandonava-a. Resolveu terminar a cerveja calmamente. Lembrava-se de um banheiro.


Abriu a outra cerveja. Esticou outra carreira. Olhou no espelho... sim, era isso. Todo o glamour da vida de um artista. Repetia para si: I’m so high! E sorria. Mas então lembrou-se de um banheiro. Lembrou enfim... as lágrimas começaram a correr... de repente, a cerveja e a coca já não ajudavam mais. Lembrou-se do banheiro. Aquele banheiro, 15 anos antes.


Tomou o resto da cerveja e esticou mais uma... pegou a lâmina e fechou os olhos. Conseguira. O sangue jorrava e sentia toda a sujeira saindo pela fissura aberta... deitou no chão e observou o piso que ficava vermelho... ainda faltava o outro pulso. Mas o banheiro, lembrava-se de um banheiro. Decidiu que seria melhor tomar mais uma e cheirar mais uma carreira. Sentou-se então no chão do banheiro, acendeu um cigarro e fumou. Lentamente soltava a fumaça, lentamente. Agora tudo tomava sua forma ideal. Agora que nada mais fazia sentido, esse era o encaixe perfeito.

Mais uma tragada. Batia as cinzas na pequena poça que se formava. O pulso cortado deixou em repouso, sem movê-lo. Mas agora precisava dele para cortar o outro e completar o quadro. Tinha que conter a aflição. Não doía, mas a aflição era quase insuportável. Abriu outra cerveja, já quente a esta altura. Mais uma carreira. Apagou o cigarro na poça, pegou a lâmina. Já não se lembrava do banheiro. Tudo o mais desapareceu quando rasgou o outro pulso. Já não lembrava do banheiro...